sábado, 17 de novembro de 2012

O Improviso como Técnica


Por Kilma Farias

Quando o assunto é dança Tribal, precisamos entender que todos os seus subgêneros derivam do ATS (American Tribal Style) e ITS (Improv Tribal Style), improvisos coordenados que se baseiam em sinalizações previamente estabelecidas resultando em uma configuração específica de dança.
Recentemente, tive a oportunidade de assistir algumas aulas na UFPB sobre técnicas de improvisação e conhecimento corporal para a construção cênica e isso me remeteu de imediato às práticas do ATS e ITS.

O primeiro paralelo que pude esboçar foi relativo ao conceito de ruptura em que surge a técnica de improviso sob a ótica expressionista alemã; ruptura de ordem social, ruptura das técnicas do ballet e posteriormente da dança moderna, entre outras. Isso trouxe a quebra de padrões habituais motores e transformou o modo de conhecer e de agir como um fazer do corpo, proporcionando uma abertura do espaço cognitivo a partir da corporeidade do sujeito.

Logo, todo improviso trabalha lado a lado com a instabilidade e imprevisibilidade. Pensando o ATS, também podemos perceber a ruptura com antigos padrões da dança do ventre. Um forte argumento é o próprio nome do primeiro grupo a surgir no estilo sistematizado por Carolena Nericcio (USA), o FatChance BellyDance. Enquanto o sonho de ser uma bailarina de dança do ventre se distancia cada vez mais das mulheres tidas como “fora do padrão”, acima do peso ou de idade avançada, por exemplo, o Tribal resignifica o conceito de beleza feminina atraindo cada vez mais novas praticantes de padrões estéticos variados como podem perceber nesse vídeo


No ATS e ITS o corpo atua ao mesmo tempo como sujeito, objeto e ferramenta, apresentando a dança como um processo que se faz e desfaz no momento em que ocorre. As técnicas de improviso proporcionam um grande crescimento para os bailarinos fazendo-os perceber cada vez mais como lidar com a cena e interagir com ela. Através desse processo o corpo se modifica de forma constante, fazendo o bailarino tomar consciência do que ele move especificamente quando ele está dançando.

Para que um improviso obtenha sucesso se faz necessária a conectividade ente os atores da cena dançada; no ATS é o que chamamos de “Conexão Tribal” , ao passo que a troca de olhares e o compartilhar constante entre bailarinos gera a percepção sutil do porvir. Tudo isso nos traz um sentido que só é possível percebê-lo na cena. A dança passa a ser um momento de conhecer e respeitar o outro, como a si mesma. Essa observação do conhecimento interno do indivíduo exige um estado de prontidão, de atenção, onde a bailarina de ATS deve estar sempre pronta para agir. Essa atenção deve ser distensionada para que a composição instantânea flua verdadeira aos olhos do público e, estando em total “Conexão Tribal”, deve parecer uma coreografia que foi ensaiada meses a fio.

O que tenho observado a partir das aulas de ATS que pude ter com Megha Gavin (USA), Isabel De Lorenzo (BR), Emine Di Cosmo (ARG), Mariana Quadros (BR), Nadja El Balady (BR) e nos dois últimos anos trabalhando ATS e ITS em sala de aula com minhas alunas é que estas desenvolvem bem mais a criatividade e a capacidade de raciocínio lógico do que outras que não estudam essa técnica, além de tomarem ampla consciência de ritmo e musicalidade. Essa observação me fez optar por colocar como pré-requisito o estudo do ATS básico para se poder adentrar nas turmas de Tribal Fusion ou Tribal Brasil. Mesmo assim, nas turmas de Tribal Fusion me utilizo do improviso como ferramenta para a construção de coreografias, como meio de reorganizar a técnica experienciada e, garimpado movimentos, giros, gestos e expressões, chegamos a uma forma codificada que será aprimorada pela repetição.

Cia Lunay desenvolvendo o ATS no espetáculo Axial.
Do latim In Promptu, que significa “em estado de atenção, pronto para agir”, o improviso é um mergulho apaixonante que precisa ser praticado constantemente por aqueles que se propõem a viver a dança em toda sua plenitude, seja para ser utilizado como material de base para composição coreográfica ou para se estabelecer em cena como um estilo de dança, seja praticado individualmente ou em grupo, com ou sem acordo prévio.
Portanto, mãos e corpos à obra e bom improviso!

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Apenas Dance...


"Dançar é meditar, dançar é se alegrar, é se entregar a uma arte inexplicável, que só sente quem dança, dançar não tem barreiras e nem limite, a dança começa pelos pés e vai até o infinito da alma, dançando bailando chão a fora, não importa a modalidade o que importa é dançar!"

sábado, 10 de novembro de 2012

Primeira Monografia de Tribal no Brasil | Joline Andrade

[ Ensaio Fotográfico em São Luís-MA por Marcelo Cunha ]

Joline Andrade é a primeira pesquisadora do Brasil a publicar uma monografia que tem com o objeto de pesquisa a Dança Tribal. Intitulada "Processos de Hibridação na Dança Tribal: Estratéfias de Transgressões em Tempos de Globalização Contra Hegemônica", a monografia foi elaborada durante a especialização em Estudos Contemporâneos sobre Dança pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Você ainda não conhece Joline Andrade? Ela é paraibana, mas mora em Salvador (BA), além de pesquisadora na área da dança, é bailarina, coreógrafa, professora e produtora. É formada em licenciatura em Dança e no Curso de Dançarino Profissional pela Universidade Federal da Bahia. Recentemente concluiu o Curso de Pós-Graduação (Especialização) em Estudos Contemporâneos sobre Dança nesta mesma universidade. Em seu projeto "Tribal Tour" já ministrou mais de 20 workshops em cidades do Brasil. 

Foi selecionada pelo diretor Miles Coperland como finalista da audição para a Cia. Bellydance Superstars (USA) em 2010. Participou de eventos com grandes nomes da dança tribal como Sharon Kihara (USA), Mardi Love (USA) e Ariellah Aflalo (USA). Recebeu um convite da bailarina Morgana (ESP) para participar do show de gala no evento Gothla Espanha que ocorreu em Madrid-ESP em 2010, junto a Asharah (USA) e outras bailarinas da Itália, Inglaterra e Espanha. Em 2011 participou do show de gala Opa!Fest em Buenos Aires-ARG com as bailarinas Kami Liddle (USA), Elisabeth Strong (USA) e outras da América Latina. Em 2013 estará no Tribal Massive Las Vegas, à convite da diretora Tori Halfon, e participará do show de gala Massive Spectacular.

Além disso, Joline tem um Atelier onde você pode encontrar figurinos de dança como também roupas para aulas práticas. Todas as peças são criadas e confeccionadas pela própria Joline e pela estilista Jacqueline Araújo.

Nunca viu Joline dançando?! Confira agora! Este vídeo foi o primeiro que vi e me apaixonei. Desde então, acompanho seu trabalho e já tive a oportunidade e o prazer de participar de um workshop. O workshop fez parte do Festival Egyptian, produzido por Kilma Farias, realizado em Agosto do ano passado (2011) e teve como convidada mais que especial, Joline Andrade. Quanta felicidade!


Para conhecer mais sobre o trabalho de Joline Andrade acesse o facebook ou no blog Híbrida Ressonante. Deleitem-se!

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Essa Metamorfose Simbiótica Chamada Tribal


Novo Espetáculo da Cia Lunay - AXIAL

Por Kilma Farias

Vivemos uma época de hegemonias culturais, facilitada pela internet, aonde a informação chega a determinado lugar e ali se instala como se a ele pertencesse. É comum importarmos costumes, moda e tecnologias sem questionarmos de onde surgem e porquê. Será mesmo que um estilo de dança é propriedade de uma cultura? Como negar a contribuição dos coreanos e franceses ao hip hop? Como negar os traços norte-americanos na dança do ventre?

O Tribal surgiu na Califórnia, mas hoje possui personalidades diversas espalhadas pelo mundo inteiro com nuances tão particulares que muitos nem classificam mais como dança Tribal. Penso essa hibridação no Tribal como uma forma de sermos “cidadãos do mundo”, e ao mesmo tempo de nos ligarmos às nossas raízes de algum modo, de nos reconhecermos e justamente por isso sermos capazes de transformar nossa noção de todo em movimento. O Tribal revisita culturas, costumes, e tece uma trama onde não se é capaz de perceber de imediato início nem fim das referências ali inclusas, gerando um novo vocabulário corporal tão de vanguarda que não se prende a padrões, modelos e afins. Aqui o padrão é quebrar com o que já existe para recriá-lo, mas nem por isso negando o que já existe; eu diria que é uma metamorfose simbiótica.    

É fato que o ser humano é atraído pelo novo, pelo diferente, e também pelo que julga ser exótico por não fazer parte do seu universo. Esse pensamento etnocêntrico que percebe a outra cultura como diferente faz com que as bailarinas de Tribal busquem acessórios e figurinos com referências banjara, gnawa, chinesa, balinesa, africana, flamenca, indiana, árabe, egípcia, urbana, gótica, burlesca de acordo com linguagem que ela venha desenvolvendo na sua dança, talvez sendo uma tentativa dela sentir-se mais bajnara, gnawa, chinesa, etc.

Entendo esse processo de dialogar com outras culturas que nos trazem outros gestos como sendo bem mais rico do que o produto final que levamos para o palco. Esse saborear de cada movimento, cada dança que está inserida nos contextos sociais mais diversos é o que me faz apaixonada pelo Tribal até hoje. Flertar com outras culturas, outros corpos, outro imaginário e poder propor a partir disso a minha impressão através de nova corporeidade é o que me fascina completamente.

Na cena coreografada precisamos, além do domínio das técnicas a serem fusionadas, de um entendimento geral em dança e artes cênicas. Essa necessidade perpassa por concepção de figurino, cenografia, direção coreográfica e musical. Trazendo para a prática, posso falar do espetáculo Axial, da Cia Lunay, onde trabalhamos, além do Tribal, as danças étnicas, assim como danças populares e afro-brasileiras hibridizadas, apropriando-nos de uma nova linguagem em dança, o Tribal Brasil.

Quando pensei no conceito de Axial, estava a ele atrelada as danças dos Orixás, assim como o Jongo, Capoeira, Coco, Cavalo Marinho e o Maracatu. Assim, convidamos professores para ministrarem oficinas em projetos nossos como o Cultura em Movimento e Caravana Tribal Nordeste, a exemplo de Andrea Gisele, Veronica Alves, Luciana Portela e Luiz Filho para que pudéssemos vivenciar essas danças. Dá para sentir um pouco desse processo assistindo os vídeos abaixo:


[Dança Iansã no Cultura em Movimento]


[Capoeira Angola no Cultura em Movimento]


[Maracatu no Cultura em Movimento]


Além disso, pesquisamos vídeos e textos sobre essas expressões, incluindo a visitação a locais onde essas manifestações culturais acontecem, e só depois então pudemos rascunhar nossas impressões, através do Tribal Brasil. O figurino foi estudado por Jaqueline Lima, levando em conta a vestimenta dessas danças, mantendo a liga com os elementos do Tribal e os traços orientais a ele agregados. O cenário também foi pensado em conjunto, visando simbolizar essa trama, essa teia, que traduz tão bem esse processo de hibridação. As músicas obedeceram a uma seleção que contemplasse o tradicional através de visão de novos músicos, a exemplo de Maga Bo, Think Of One e Dj Dolores. Agregada a essa forma de pensar nossa arte, estamos tendo a oportunidade de aplicar Laban através dos laboratórios com Guilherme Schulze, que tem feito a direção coreográfica da Lunay desde janeiro de 2012.

Digo “estamos tendo” porque estamos nos permitindo experimentar um novo modo de sentir o Tribal, e isso solicita de nós uma abertura maior para entender nosso trabalho em constante andamento. Hoje, para mim, não há o pronto, o acabado, fechado em si. Estou descobrindo que o mesmo movimento tem infinitas possibilidades de se apresentar na hora certa. Isso abriu um leque infinito no fazer do nosso Tribal, dentro da Lunay, e não tenho pressa em descobrir aonde esse novo fazer possa nos levar porque, como falei no início dessa conversa, é o caminho, e não o destino final que mais me motiva a dançar, dançar, dançar e dançar.

Caminhemos! Aos que querem conhecer nosso trabalho, Axial será apresentado no Festival Mundo (Usina Cultural Energisa), dia 11 de novembro, às 19h.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Aquarius Tribal Fusion Cia de Dança - Caravana Tribal NE - Doc 2011


Documentário experimental de caráter amador sobre as vivências tidas por vários participantes da 2º Edição da Caravana Tribal Nordeste - CTNE, em Recife-PE, no ano de 2011. Relatos acerca dos processos de formação e crescimento do Tribal pernambucano e nordestino, de fomentação de Cultura e Arte no estado de criação de platéia entre diversos outros temas levantados pelos artistas em cena.

Cia Lunay no Festival Mundo 2012


A Cia Lunay (PB) apresenta o Espetáculo Axial está estruturado na dicotomia sagrado-profano, oriente-ocidente, resistência-entrega. A busca pelo eixo central que une esses motivos; um mergulho nas raízes das danças brasileiras sob a perspectiva da dança Tribal, recebendo influências dos povos africanos, berberes e andaluz.
Um espetáculo com direção coreográfica de Guilherme Schulze.

Direção geral de Kilma Farias.

Bailarinoa: Fabiana Rodrigues, Juliana Garcia, Jaqueline Lima, Jackeline Mendonça, Kely Maurien, Priscila de Carvalho, Luana Aires e Kilma Farias. 

Dia 11 de Novembro, às 19H15.


Para saber mais sobre os espetáculos ou ver a programação do Festival  Mundo, acesse o site: www.festivalmundo.com

terça-feira, 6 de novembro de 2012


Entrevista com Ariellah Aflalo (US) por Kilma Farias

Ariellah, rainha do Dark Fusion e Theatrical Belly Dance

Ariellah Aflalo é uma das dançarinas de tribal que mais inova e se supera a cada ano. Em 2002 foi aluna de Rachel Brice, integrando o The Indigo em 2003. Seguiu com seus projetos pessoais e, em 2007, fundou o Deshret Dance Company. Estive com Ariellah que me concedeu essa entrevista exclusiva, falando do Tribal, seus novos rumos, conselhos e muito mais.

Kilma - Como você entende o Estilo Tribal hoje? Os novos caminhos que ele tem tomado... a dança contemporânea cada vez mais sendo adicionada...

Ariellah - Eu vejo novas formas de dança surgirem toda vez que vou para um novo evento ou show e isso é muito emocionante. Acredito que o Estilo Tribal hoje mudou e transformou-se em tantas direções que se poderia até chamá-lo uma forma de dança completamente nova, como talvez Dança de Fusão... Eu acredito que o nível da técnica tem aumentado muito em todo o mundo e este, por sua vez, trouxe um novo nível de talento para a dança, assim mais e mais dançarinos estão ganhando uma melhor compreensão da técnica e, em seguida, tendo a capacidade de fundir outras formas de dança e arte em cima dos movimentos fundamentais.

Kilma - Você acredita que a segmentação dos estilos (gótico, cyber, industrial, cabaret, burlesque, balkan...) pode descaracterizar o Tribal?

Ariellah - Eu não acredito que outros gêneros de dança do ventre podem ou irão descaraterizar o Tribal Bellydance. O American Tribal Style-ATS é ainda muito forte em todo o mundo. Todos nós amamos esse estilo original da dança do ventre moderna e acho que há beleza no fato de que a dança do ventre é tão versátil e o movimento é tão aberto que muitos estilos novos de dança do ventre podem surgir a partir deste, e que cada bailarino pode escolher como chamar seu estilo e dançá-lo. Como eu viajo por todo o mundo assistindo a vários shows, vejo a dança do ventre tomar nova forma, e não vejo qualquer diminuição no Estilo Tribal e eu muitas vezes posso notar as origens,  movimentos originais do estilo tribal dentro destas novas formas, quando a bailarina está dançando. Acho que é porque o Estilo Tribal foi a idéia original por trás de um monte de movimentos, estilos e gêneros que vemos hoje, nunca se pode escapar a adição de alguns desses movimentos originais, figurinos e idéias dentro das novas formas de dança do ventre. Então, eu não acredito que ter muitos gêneros ou sub-estilos pode enfraquecer ou descaracterizar o Tribal. Acredito que todos eles vêm do Estilo Tribal Americano. :-)

Kilma - O que você acredita ser essencial para aqueles que desejam iniciar seus estudos no Tribal?

Ariellah - Eu definitivamente acredito que é essencial ter estudado e ser fluente na formação do ATS e ter uma sólida experiência neste formato, diretamente do Fat Chance BellyDance. Seus movimentos e o estilo de figurino e música são a espinha dorsal para o Tribal. Dos giros, para a postura dos braços, para a maneira pela qual um movimento de quadril é executado, são a base e a porta de entrada para todos os outros estilos modernos derivados do Tribal Bellydance. Portanto, eu acredito que isso é essencial para ser bem versado neste estilo de dança. Por outro lado, eu acredito que seja essencial  compreender os conceitos básicos da dança, postura e movimentos em geral e acredito na formação transversal em outras formas de dança, como ballet, jazz, flamenco, indiano, etc, para receber uma boa base, sob a forma de disciplina e arte da dança em si.

Kilma - E para aqueles que já praticam o Tribal e vêem em você um grande exemplo, que conselho você daria?

Ariellah - Acredito que deve-se tentar treinar tanto quanto eles podem e conhecer intimamente cada movimento e tentar ganhar um domínio de cada movimento para que pudessem descrever tudo sobre ele sem nem mesmo fazer fisicamente esse movimento. Isso significa que essa pessoa se tornou  um mestre no que faz. Eu também incentivo sempre a continuar a sua educação de dança por um ou outro meio, tendo aulas particulares ou continuar indo para a aula de dança do ventre regularmente e receber feedback de um instrutor e novas idéias para que o dançarino possa crescer continuamente. Eu também acredito, na minha humilde opinião, que para ser um grande dançarino, é preciso ter técnica incrível, arte da dança e expressão (grande emoção e paixão). 50% em partes iguais ... não apenas técnica e não apenas emoção, mas ter os dois juntos...

domingo, 4 de novembro de 2012

Metodologia de ensino e estudo no Tribal: Um caminho cheio de curvas

Tribal - uma escolha de múltiplos caminhos
Por Kilma Farias

Quando o assunto é método de estudo/ensino, devemos ter em mente a ordem do aprendizado desenvolvido para se alcançar um objetivo. No caso do Tribal, não teremos apenas um processo de normas ou simplesmente técnica de ensino, pois existem muitos caminhos possíveis de serem trilhados. Para tanto, é preciso entender a árvore genealógica do estilo.

O Tribal, seja de qual subgênero estejamos falando, como por exemplo o Fusion, Dark,  Brasil, Cyber, Steampunk, Industrial, Burlesco, Cabaret, Combo-Based, teve como precedente o American Tribal Style (ATS), estilo de dança criado por Carolena Nericcio, bailarina californiana, e desenvolvido pelo FatChance BellyDance desde os anos 80 e que tem por fundamento o improviso dirigido através de um sistema de sinais que faz parte da comunicação interna do grupo no ato da performance e em sala de aula. Por sua vez, o ATS teve como base de formatação a influência cultural e gestual das Danças Indianas Clássicas, da Dança do Ventre e do Flamenco. Tudo isso foi absorvido pela Carolena para que ela nos brindasse com o ATS. Dessa forma, precisamos entender as culturas Indiana, do Oriente Médio e Emirados Árabes e Espanhola como sendo as raízes do Tribal, tendo o ATS como tronco comum. Isso nos faz entender os galhos e folhas dessa árvore como sendo os subgêneros já citados no início do texto. Comparando, poderíamos dizer que o ATS seria uma “cadeira obrigatória” dessa faculdade, sendo ela do tronco comum, assim como os subgêneros seriam “cadeiras optativas” e poderiam contar ainda com o estudo de temas transversais como teatro, outras modalidades de dança, etc.

Muitas pessoas trabalham o Tribal Fusion, o Dark, o Tribal Brasil e outros estilos sem nunca terem estudado ATS ou sem ao menos demonstrarem interesse sobre o assunto. Não estou querendo dizer com isso que o trabalho dessas pessoas não seja bom, ou seja pior que outras que detenham esse conhecimento, mas venho alertar para esta necessidade. Talvez por esse motivo o Tribal ainda seja criticado entre as bailarinas de Ventre e Folclore Árabe, pois estas por sua vez devem sentir falta de embasamento nos trabalhos apresentados.

A saber, uma bailarina de Tribal tem muita responsabilidade em seu estudo, ou pelo menos deveria ter. Ela precisa ter um conhecimento vasto em Dança do Ventre, Ritmologia e Folclore Árabe, tanto teórico como prático, além de ter uma boa bagagem de Flamenco e Dança Indiana Clássica.
Fundamental: conhecimentos em ATS. A partir daí ela terá condições de aprofundar um subgênero como o Tribal Fusion, por exemplo, ou até desenvolver um estilo como faço com o Tribal Brasil.

Fora isso, é bom estudar teatro e dança contemporânea. Dependendo do subgênero que desenvolva, é imprescindível estudar Popping ou Dança Afro, Danças Populares Brasileiras, ou Tango, e toda espécie de Danças Étnicas.
Minha experiência pessoal passa por 13 anos de Dança do Ventre e Folclore Árabe e digo sempre às minhas alunas que a Dança do Ventre é como Vitamina C, temos de tomar todo dia. Fiz um ano de Flamenco, suficiente para me dar uma boa base e, além disso, temos a Karina Leiro, professora e bailaora em nosso grupo, a Cia Lunay. Estudei um ano as danças urbanas, em especial o Popping, na Tribo Ethnos com Vant Vaz. Estudei Odissi, Kathak e Bharatnatyam, com Silvana Duarte, Bela Saffe e Gyaneshree. ATS com Megha Gavin (Califórnia), Mariana Quadros (SP), Isabel De Lorenzo (Itália) e Emine Di Cosmo (Argentina). Tribal Fusion e diversos outros subgêneros com grandes nomes como Sharon Kihara, Mardi Love, Jill Parker, Moria, Kami Liddle, Anasma, Tjarda, Aepril, Dalia Carella, Jonh Compton, entre outros. No meu Studio, desenvolvo um projeto chamado Cultura em Movimento, onde oficinas de danças étnicas com professores competentes são oferecidas aos alunos de Tribal como, por exemplo, Dança dos Orixás, Coco-de-roda, Maracatu, Capoeira, Dança Havaiana, Cigana, Kuduro, Popping, Tango, Cavalo Marinho, entre outras. Hoje, venho me dedicando ao estudo da dança contemporânea e à linguagem da videodança com Guilherme Schulze, que vem compartilhando seus conhecimentos com a Cia Lunay. E depois de muito caminhar nessa estrada com uma metodologia múltipla, resolvi adotar no Studio Lunay alguns possíveis caminhos através da grade que aparece no início desse texto.

Desse modo, os alunos de Tribal Fusion precisam passar pela turma de ATS/ITS (Improv Tribal Style), e estes, por sua vez, precisam ser oriundos de uma das turmas de Dança do Ventre, ou do Folclore Árabe, ou ainda da turma de Ritmologia. Oficinas do Cultura em Movimento, aulas de Flamenco, Indiana, Teatro e outras técnicas, como Contemporâneo, Ballet, práticas circenses e conhecimentos gerais em história da arte e da dança, entendo como sendo opções que o aluno faz de acordo com o que ele objetiva pesquisar/estudar.

Será que depois desse entendimento ainda vai ter bailarina achando que não precisa estudar para trabalhar com o Tribal? E as colegas do Ventre que não respeitam o estilo e pensam que somos um bando de loucas excêntricas, rebeldes sem causa, que dançamos mal? Será que terão mais respeito? Eu só sei de uma coisa: nesse caminho árduo, mas também prazeroso chamado Tribal, a melhor bússola é o estudo, guiado com grande dose de bom senso.
Fui!  Pois tenho sempre muito que estudar...

Kilma Farias – Professora, bailarina e coreógrafa de Ventre, Tribal e Fusão. DRT 3181/04-34 (PB)

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Um Giro Tribal por Kilma Farias

Cia Lunay em AXIAL, espetáculo de Tribal Brasil

O Tribal, hoje no Brasil, já está bem difundido, tendo representantes da arte do Nordeste ao Sul do país. É cada vez mais comum encontrarmos praticante desde o American Tribal Style-ATS, passando pelo Teatrical Belly Dance e até desenvolvendo um estilo próprio como o Tribal Brasil.

Iniciamos nosso giro por esse cenário a partir do Nordeste. Nessa Região do país, vem sendo desenvolvido o estilo Tribal Brasil, através da fusão de movimentos do ATS clássico e moderno com o Tribal Fusion, adicionando o ingrediente principal, as danças populares e afro-brasileiras, transformando tudo isso num Combo Based com personalidade bem brasileira.

Iniciei o Tribal Brasil em 2003, mas ainda muito tímido utilizando o nome de Ventre Experimental Brasil, onde fusionava o folclore Árabe com as danças afro-brasileiras. Mais tarde, em 2005, já tomando conhecimento do ATS, intitulei de Tribal Brasil e apliquei esses estudos à Lunay, grupo que dirijo e que hoje possui núcleos em João Pessoa-PB e Recife-PE.

Para proporcionar o embasamento teórico e técnico e fortalecer a construção e disseminação do estilo, surgiu, em 2010, a Caravana Tribal Nordeste a partir de um desejo meu e da bailarina Bela Saffe-BA, tendo como projetista a bailarina Alê Carvalho-PE. Estruturamos o projeto como sendo um evento itinerante que circularia por quatro Estados, Paraíba, Pernambuco, Bahia e Rio Grande do Norte. Esse projeto ganhou dimensões grandiosas e até já realizamos quatro edições internacionais, com Sharon Kihara e Bele Fusco (Estados Unidos) em João Pessoa; Mira Betz (Estados Unidos) e Anasma (França) em Salvador; e com Emine Di Cosmo (Argentina) em João Pessoa.

Outro importante pilar do fortalecimento do Tribal Brasil são os estudos acadêmicos através de TCC’s, e artigos científicos, trazendo o reconhecimento da Academia da importância do estilo e os estudos paralelos desenvolvidos pelos grupos que o praticam. No Studio Lunay, produzimos o Cultura em Movimento, baterias de oficinas de danças étnicas que são, na verdade, a matéria-prima para as fusões que iremos realizar. Tudo é estudado, vivenciado, registrado e mais tarde adaptado para a linguagem do Tribal.

Hoje, diversos grupos realizam ou já realizaram trabalhos de Tribal Brasil como por exemplo o Aquárius Tribal Fusion, Kairós, Shaman, Falak Fusion, Cia Odara, Nadja El Balady, Ulan Daban, DSA, Tribal Lilies, Hades, Artemis e recentemente vi diversos trabalhos em Brasília e São Paulo dentro dessa proposta.

Em 2006 tive a oportunidade de ir a Buenos Aires levando o Tribal Brasil e fusões de Ventre com danças afro-brasileiras através de Rita Andriossi, oportunidade essa que se repetiu em 2011 quando voltei a Buenos Aires para ministrar workshops em dois eventos, Vinaya Fest, produzido pela Florência Benitez e Tallers Lunay, produzido por Rubí Bellydance. No mesmo ano também levei o Tribal Brasil para Lima, Perú, onde o estilo também foi muito bem aceito pelas bailarinas da Escuela Luna Dance. Em 2010 o Tribal Brasil foi recebido com mérito na Flórida, Estados Unidos, no Spirit of The Tribes, evento produzido pela Maja Nile, onde eu pude ministrar duas aulas de Tribal Brasil, dançar no palco principal durante os três dias de evento, incluindo participação ao vivo com a banda californiana Danyavaad, e ainda ter tido a honra de ser jurada da Mostra Competitiva. O retorno que o Tribal Brasil teve desse evento foi maravilhoso, incluindo entrevista para a TV local da Flórida e matéria na revista americana Yallah. Assim, o Tribal Brasil vem se firmando e se estruturando cada vez mais como estilo, ocupando uma posição firme no cenário mundial do Tribal.