quarta-feira, 23 de abril de 2014

A Dança como religare e instrumento de tolerância e paz

A dança é um instrumento de autoconhecimento em que se trabalham os níveis físico, emocional, mental e espiritual de uma maneira suave e profunda. Quando se toca determinada melodia o universo ressoa, é uma lei, e nosso universo interior também ressoa na mesma melodia. Portanto, quando a dançarina decodifica a melodia com a técnica da coreografia e transpõe para o espaço, seu corpo se transforma em movimento sincronizado com o todo do universo, na interpretação desses elementos o corpo flui em harmonia com o sagrado. Dessa maneira, a dança e a música não são somente uma arte, mas um modo total de viver o mundo, um modo de existir. É, a um só tempo, conhecimento, arte e religião, o que nos dá um novo poder, o da consciência dessa transcendência. (Trecho do prefácio, por Mit Mujalli, do livro Dança do Ventre: da energia ao movimento, de Kilma Farias. João Pessoa: Editora Universitária/UFPB, 2004.)

         Posso afirmar sem sombra de dúvidas que a dança é meureligare. Através do movimento do corpo – e entendo o corpo como pensamento, sentimento e matéria – integro o todo universal, renovando energias, purificando-me e energizando-me por completo.
Foco minha pesquisa, desde 1999, nas danças sagradas femininas, dentre elas, a dança do ventre, danças ciganas, indiana Odissi, dança dos Orixás e, mais recente, a dança Tribal. Percebo a mulher como um canal divino de fecundidade e força geradora.

[...] a fecundidade da mulher e seus poderes mágico-religiosos ocultos exercem uma influência decisiva na vida das plantas. O fenômeno social e cultural conhecido sob a designação de matriarcado está ligado à descoberta da agricultura pela mulher. Foi a mulher a primeira a cultivar as plantas alimentares. Por consequência foi ela que se tornou proprietária do solo e das colheitas [...] a mulher está, pois, misticamente solidarizada com a Terra, o dar à luz apresenta-se como uma variante, à escala humana, da fertilidade telúrica. Todas as experiências religiosas relacionadas com a fecundidade e o nascimento têm uma estrutura cósmica. A sacralidade da mulher depende da santidade da Terra. A fecundidade feminina tem um modelo cósmico: o da Terra Mater, a Mãe Universal. (ELIADE, 1999, p. 153).

        A dança Tribal, estilo que mais me debruço em pesquisar, busca unir ancestralidades e pós-modernidade em uma só expressão. Surgiu na Califórnia nos anos 70 através da bailarina Jamilla Salimpour e seu grupo Bal Anat (a deusa mãe) que buscava movimentos étnicos em sua expressão artística, ligados à representatividade dos ritos à grande Deusa universal. Mais tarde, nos anos 80, outra californiana, Carolena Nericcio, sistematiza o e estilo Tribal em um método de improviso dirigido chamado de American Tribal Style, buscando uma linguagem híbrida entre a dança do ventre, flamenco e dança indiana.  É uma revisitação do passado com perspectiva de futuro, trazendo, muitas vezes a representação de arquétipos de deusas e ritualísticas. Para Luciana Carlos Celestino (2008) “De fato, a dança Tribal não é apenas um estilo de dança, se trata muito mais de uma concepção de mundo. É preciso compreender que estas dançarinas têm uma intensão clara, exaltar o que elas chamam de valores ligados ao feminino e ao planeta Terra, como matriz criadora.”
        Em 2003, inicio a sistematização do Tribal Brasil, estilo que desenvolvo a partir das danças populares e afro-brasileiras em hibridação com o estilo de dança Tribal. Surge aqui inúmeras possibilidades de abordagem das danças rituais ligadas ao sagrado feminino serem revisitadas e levadas ao palco sob uma nova perspectiva, que não apenas do ponto de vista religioso, mas de se estar construindo também arte e ciência. A partir do momento em que representações diversas do sagrado feminino coabitam no palco em uma só dança, abrimos o diálogo para tolerância e paz entre as religiões, entre os pensamentos filosóficos e diferentes organizações sociais. No Tribal, constrói-se uma arte colaborativa de influências míticas diversas, gerando uma expressão totalmente nova, mas com força e plasticidade muitas vezes ritual.
        Com o Tribal Brasil, já experimentei diálogos entre a modernidade das danças urbanas e o Toré, interpretando personagens como a Cabocla Jurema e índia Tambiá, por exemplo; outras vezes, hibridizei Orixás como Iemanjá e Iansã com ciganas do Egito, gawazees, ou com os povos berberes, trazendo uma nova representatividade de um sagrado feminino que empresta sua força para gerar uma nova personificação.            
        Acessórios simbólicos também são utilizados, como por exemplo o jarro, representando a fertilidade e o útero feminino; a espada, fazendo referência aos Templários e identidade guerreira, mas também ao Orixá Iansã; o espelho, característico do Orixá Oxum e das sereias, que reflete as águas profundas de cada ser; a taça, forte símbolo do cristianismo, mas também dos ritos a Dionísio, onde o vinho e a taça eram presentes; o fogo, utilizado nos ritos de passagem do Oriente Médio, iluminando o novo caminho a ser trilhado; as flores, representando a natureza, Gaia, e toda a fertilidade da Terra; o véu, que impede que se veja com clareza o que está oculto, e o seu desvencilhar, representando a iluminação, o cair das vendas; a serpente, símbolo do infinito e da transformação; a adaga e o pandeiro, trazendo a representatividade do povo cigano; chocalhos, sinos, sistros e toda forma de associação do som como o princípio da criação envolto na dança. Esses e outros acessórios compõem um sistema simbólico dentro da dança do ventre e Tribal, embora seja esse um sistema que se permite recriar, (re)significar a cada dança, a cada interpretação, não cabendo interpretações fechadas.
        O que vai ao palco é uma representação e interpretação pessoal da bailarina que dança uma construção de vida: religiosa, filosófica, política, sociocultural. Em cada detalhe de seu gesto, em seu figurino e na música utilizada essa construção perpassa, gerando uma identidade que fala do artista que comunica através da dança. As técnicas de corpo utilizadas não enquadram nem rotulam o Tribal. Em vez disso, são ferramentas para aflorar o feminino em toda sua plenitude e força plural.


Referências Bibliográficas:

CELESTINO, L. Sementes, espelhos, moedas, fibras...: a bricolagem da dança tribal e uma nova expressão do sagrado feminino. Pós­-Graduação em Ciências Sociais ­ UFRN – 2008.

ELIADEM. O sagrado e o profano: a essência das religiões. Lisboa: Livros do Brasil,1956.

FARIAS, K. Dança do Ventre: da energia ao movimento. João Pessoa: Ed. Universitária: UFPB, 2004.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Trad. Tomás Tadeu da Silva e Guaracira Lopes Louro. 11. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2011.

No Tribal Brasil, os arquétipos dos Orixás, movimentos da dança do ventre e da dança indiana, por exemplo, habitam o mesmo corpo em uma só expressão.
No Tribal Brasil, os arquétipos dos Orixás, movimentos da dança do ventre e da dança indiana, por exemplo, habitam o mesmo corpo em uma só expressão.

Aula Magna de Ciências das Religiões-UFPB, dialogando sobre esse tema.
Aula Magna de Ciências das Religiões-UFPB, dialogando sobre esse tema.

Por Kilma Farias

sábado, 12 de abril de 2014

Nordestinados

Produção do Aquarius Cia de Dança. Previsão de estréia para agosto!


Identidade no corpo Tribal

por Kilma Farias
Cia Lunay em Axial

Os traços das danças dos Orixás, dos torés, dos caboclinhos, do coco, cavalo marinho, carimbó, maracatu, forró, samba, capoeira, frevo e todo o contexto sócio-político-cultural em que estão inseridos, estão presentes em cada brasileiro, no gesto cotidiano, como se fossem códigos de um DNA cultural entrelaçados em nossa personalidade e que, sem necessariamente serem explícitos, afloram em nossa corporeidade. 

Carol Marques, interpretando a Sereia

O Tribal Brasil é um estilo de dança em processo onde me dedico há 11 anos na pesquisa de diferenças e semelhanças entre danças orientais e populares do Brasil, resultando em uma nova dança com proposta híbrida que vem nos falar sobre identidade. Vejamos o que diz Stuart Hall (2011) sobre identidade:

[...] preenche o espaço entre o “interior” e o “exterior” – entre o mundo pessoal e o mundo público. O fato de que projetamos a nós próprios nessas identidades culturais, ao mesmo tempo que internalizamos seus significados e valores, tornando-os “parte de nós”, contribui para alinhar nossos sentimentos subjetivos com os lugares objetivos que ocupamos no mundo social e cultural. (HALL, 2011, pp. 12).
             
Ocupar um lugar no mundo, seja ele no mundo cotidiano ou no mundo da arte, na dança, é algo que se faz mesmo sem intenção. Pois, quando elaboramos uma coreografia ou nos entregamos a um improviso, estamos falando sobre nossa(s) identidade(s) em nós e no mundo, mesmo que não seja de modo proposital. É impossível não falar. O “não falar” já comunica uma identidade: a de calar, silenciar, se omitir ou ser indiferente.

Samile Dias, interpretando Gabriela.

No Tribal, falamos “de muitas tribos” como já explicava Jamila Salimpour na época de formação inicial do Bal Anat. Só que falamos de um modo traduzido, sob nossa ótica – a nossa forma de perceber e de dizer ao outro o que nos encanta nas outras culturas.

A esse ato de se colocar como multiplicador da identidade cultural de um povo, Hall (2011) chama de Tradução. O tradutor seria uma pessoa com vínculos arraigados com sua cultura local que, por algum motivo, foi distanciada de sua terra natal. Essa pessoa continuará mantendo forte vínculo com seu lugar de origem e suas tradições, mas sem a ilusão de retornar ao passado. “Elas são obrigadas a negociar com as novas culturas em que vivem, sem simplesmente serem assimiladas por elas e sem perder completamente suas identidades”. (HALL, p. 89, 2011). Com a particularidade de que elas não serão unificadas porque são o produto de várias culturas interconectadas. “As pessoas pertencentes a essas culturas híbridas [...] estão irrevogavelmente traduzidas” (HALL, p. 89, 2011).

Viviane Macedo

Trazendo esse pensamento para nossa arte, o Tribal, poderíamos pensá-lo como uma arte traduzida a partir de várias etnias transformada em dança. No caso do Tribal Brasil, a identidade da cultura popular e afro-brasileira é traduzida para o Tribal Fusion, que, por sua vez, já é a tradução de diversas etnias, culturas e subculturas que foram agregadas ao American Tribal Style® (ATS), que, por sua vez, é a tradução da dança do ventre hibridizada com o flamenco e a dança indiana. Ufa! Que mistura, heim?

Jaqueline Lima

Isso nos leva a refletir que possivelmente haja um desejo de nos mantermos ligados, conectados a um todo imaginário, de sermos integrantes de uma só dança cósmica, um só movimento, mas ao mesmo tempo sendo únicos em cada expressão, cada um com sua identidade.

Para Hall (2011), esse desejo de identidade unificada é uma ilusão.

"A identidade plena unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia. Ao invés disso, à medida em que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar – ao menos temporariamente.” (HALL, 2011, p. 13).

Sendo a arte uma representação que fala da sociedade em que está inserida, penso essa liberdade de se identificar, ao menos temporariamente, com determinada identidade, como uma das fortes características do Tribal Brasil. Pois, cada processo coreográfico nos chama a imergir em identidades múltiplas, seja na cultura Afro, seja na indígena, ou na popular dos maracatus e cocos de roda. E me encanta essa multiplicidade de possibilidades a serem dançadas, de traduzirmos o passado e o presente em movimento, em Tribal Brasil.

Kilma Farias em Feminino Plural.
E pra você? Quais identidades movem sua dança, ou que danças movem sua identidade?
Texto publicado no blog: Aerith