sábado, 12 de abril de 2014

Identidade no corpo Tribal

por Kilma Farias
Cia Lunay em Axial

Os traços das danças dos Orixás, dos torés, dos caboclinhos, do coco, cavalo marinho, carimbó, maracatu, forró, samba, capoeira, frevo e todo o contexto sócio-político-cultural em que estão inseridos, estão presentes em cada brasileiro, no gesto cotidiano, como se fossem códigos de um DNA cultural entrelaçados em nossa personalidade e que, sem necessariamente serem explícitos, afloram em nossa corporeidade. 

Carol Marques, interpretando a Sereia

O Tribal Brasil é um estilo de dança em processo onde me dedico há 11 anos na pesquisa de diferenças e semelhanças entre danças orientais e populares do Brasil, resultando em uma nova dança com proposta híbrida que vem nos falar sobre identidade. Vejamos o que diz Stuart Hall (2011) sobre identidade:

[...] preenche o espaço entre o “interior” e o “exterior” – entre o mundo pessoal e o mundo público. O fato de que projetamos a nós próprios nessas identidades culturais, ao mesmo tempo que internalizamos seus significados e valores, tornando-os “parte de nós”, contribui para alinhar nossos sentimentos subjetivos com os lugares objetivos que ocupamos no mundo social e cultural. (HALL, 2011, pp. 12).
             
Ocupar um lugar no mundo, seja ele no mundo cotidiano ou no mundo da arte, na dança, é algo que se faz mesmo sem intenção. Pois, quando elaboramos uma coreografia ou nos entregamos a um improviso, estamos falando sobre nossa(s) identidade(s) em nós e no mundo, mesmo que não seja de modo proposital. É impossível não falar. O “não falar” já comunica uma identidade: a de calar, silenciar, se omitir ou ser indiferente.

Samile Dias, interpretando Gabriela.

No Tribal, falamos “de muitas tribos” como já explicava Jamila Salimpour na época de formação inicial do Bal Anat. Só que falamos de um modo traduzido, sob nossa ótica – a nossa forma de perceber e de dizer ao outro o que nos encanta nas outras culturas.

A esse ato de se colocar como multiplicador da identidade cultural de um povo, Hall (2011) chama de Tradução. O tradutor seria uma pessoa com vínculos arraigados com sua cultura local que, por algum motivo, foi distanciada de sua terra natal. Essa pessoa continuará mantendo forte vínculo com seu lugar de origem e suas tradições, mas sem a ilusão de retornar ao passado. “Elas são obrigadas a negociar com as novas culturas em que vivem, sem simplesmente serem assimiladas por elas e sem perder completamente suas identidades”. (HALL, p. 89, 2011). Com a particularidade de que elas não serão unificadas porque são o produto de várias culturas interconectadas. “As pessoas pertencentes a essas culturas híbridas [...] estão irrevogavelmente traduzidas” (HALL, p. 89, 2011).

Viviane Macedo

Trazendo esse pensamento para nossa arte, o Tribal, poderíamos pensá-lo como uma arte traduzida a partir de várias etnias transformada em dança. No caso do Tribal Brasil, a identidade da cultura popular e afro-brasileira é traduzida para o Tribal Fusion, que, por sua vez, já é a tradução de diversas etnias, culturas e subculturas que foram agregadas ao American Tribal Style® (ATS), que, por sua vez, é a tradução da dança do ventre hibridizada com o flamenco e a dança indiana. Ufa! Que mistura, heim?

Jaqueline Lima

Isso nos leva a refletir que possivelmente haja um desejo de nos mantermos ligados, conectados a um todo imaginário, de sermos integrantes de uma só dança cósmica, um só movimento, mas ao mesmo tempo sendo únicos em cada expressão, cada um com sua identidade.

Para Hall (2011), esse desejo de identidade unificada é uma ilusão.

"A identidade plena unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia. Ao invés disso, à medida em que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar – ao menos temporariamente.” (HALL, 2011, p. 13).

Sendo a arte uma representação que fala da sociedade em que está inserida, penso essa liberdade de se identificar, ao menos temporariamente, com determinada identidade, como uma das fortes características do Tribal Brasil. Pois, cada processo coreográfico nos chama a imergir em identidades múltiplas, seja na cultura Afro, seja na indígena, ou na popular dos maracatus e cocos de roda. E me encanta essa multiplicidade de possibilidades a serem dançadas, de traduzirmos o passado e o presente em movimento, em Tribal Brasil.

Kilma Farias em Feminino Plural.
E pra você? Quais identidades movem sua dança, ou que danças movem sua identidade?
Texto publicado no blog: Aerith

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